sexta-feira, junho 4

Ali para os lados do Campo Grande

Estou no hipódromo do Campo Grande. Uma coisa ao mesmo tempo pobrezinha e elitista, para a qual fui convidado por um amigo meu. Já lá vou. Agora quero olhar em volta.

Ali, por detrás da Alameda da Universidade, há um espaço onde os cavalos saltam com homens em cima. É uma das agremiações mais antigas de Lisboa. Para se entrar, é preciso convite (a não ser que se seja afiliado, o que não sou). Para se lá chegar é preciso poderes de adivinhação. O sítio em causa não tem indicações de rumo. Deduzo que se calhar não é preciso: ou se sabe onde fica ou não se sabe. É (i)nato. Quem não sabe, não entra. Exceptuando os convidados, é claro, mas isso deve ser uma excepção.

Depois do enrascanço total para encontrar o sítio, vai-se dar a um restaurante de nome 'Jockey'. Primeira surpresa: não é um restaurante. É assim um telheiro com plástico por cima, posto de lado vesgo para a pista de obstáculos. Não se vêem os cavalos, mas tem-se uma boa vista para todos os que estão ali na óptica da ração. Até aqui, qualquer coisa no Bairro Alto ou na Graça tem mais pinta. Mas não tem a clientela que por lá pára.

Olhando, dizia eu, em volta, lá estão os 'petit-noms' com apelido graúdo aposto, daqueles que se vêem nas revistas e - créme de la créme - daqueles que nem sequer nas revistas vêm. O seu-triângulo-das-Bermudas-deles tem ali bem perto um dos fortes eixos, o qual explico são os cativos do Estádio de Alvalade, que esta gente quando não vê verde, seja debaixo das patas dos cavalos, seja ao redor da juba do lagarto, não se sente bem. Talvez lhes tenha ficado a ideia da jóia de jade da madrinha aposta ao pescoço velho quando ainda eram crianças. Freud não explica, porque não tinha clientes destes.

Do probrezinho acolhimento, entreposto pela visão rica dos prandiáticos, ressalta o meu amigo. É diferente. Nasceu com alma nobre e julgou, erradamente, que ela se salvava no convívio com os possidentes. Deu-se mal mais que uma vez, mas ficou-lhe o vício. Sempre que pode, e agora pode, convida uns devassos puros que ele ama para com ele trajarem de gente boa ao pé da gente da broa. O meu amigo é imenso, mesmo naquilo que nele menos gosto, que é o convívio com o Aramis quando o que está a dar é l'Eau d'Issey. Mas perdoo-lhe. Ele gosta de Alfa-Romeos, quando já todos os pascácios em volta têm BMW a Audi-quatro.

O que é triste é que ninguém olha para os cavalos.

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