quinta-feira, maio 13

Esquerda, direita, testosterona, casmurrice e (apesar de tudo) alguma esperança

Não há blog que se preze que não tenha, nos últimos dias, focado o tema das sevícias provocadas por militares estrangeiros a alguns prisioneiros resultantes da actual intervenção no Iraque. A questão ocupou mesmo alguns dos nossos principais cabeças-de-
alfinete, gente encartada em opinar (ou cagar postas de pescada). A este propósito, querendo cerrar fileiras, alguns mostram o que a Al-Qaeda fez aos reféns ocidentais, outros lembram o relatório sobre alegadas e quejandas práticas no PREC, outros ainda aproveitam a maré para desancar no Durão e na sua persistência em manter uns quantos GNR a ganhar ajudas de custo em cu-de-judas, algures entre-tigre-e-eufrates. O sectarismo com que a maior parte dos bloguistas afronta a questão é mais terrível (porque persistente) que a tortura.

Seguindo a lógica de que 'as tuas sevícias são piores que as minhas', os bloguistas servem-me, a mim, para me incentivar falta de fé nos seres humanos. E para constatar, pela enésima vez, que o chimbalau entre pessoas responsáveis de esquerda e de direita só serve para diminuir o acervo de ideias válidas que ambas as posições têm, secularmente, trazido à condição humana.

Sejamos claros: Os Estados Unidos da América do Norte são o país mais feito de contrastes de que há memória. Uma das maiores obras de extermínio da história foi perpretada pelos seus habitantes brancos. São esses mesmos EUA que deram ao mundo muitas das maiores conquistas civilizacionais da nossa era (quer em termos científicos quer culturais). Perorar sobre os 'yankies' sem ver as duas (ou mais) faces da moeda é estultícia.
Por outro lado: As empresas de prisões privadas, uma das quais foi contratada para assegurar a 'logística' no Iraque, são a invenção mais porca da ideologia neo-liberal. Há coisas que só o Estado democrático pode fazer, porque está sujeito a escrutíneo, como sejam o velar pela segurança dos seus cidadãos, quer eles usufruam de todos os direitos, quer estejam, por ordem judicial, privados de parte deles. Nem quero pensar o que passa pela cabeça de torcionários endógenos e hormonais para que se tornem empresários de cadeias, com toda a lógica de corte de custos e eficiência na prossecução do escopo industrial que lhe subjaz.
Outra ideia: Ninguém que se arroga de cada um dos lados do jogo-da-corda da ideologia está livre de que lhe vão ao sótão encontrar cadáveres. Por isso, condenar à-vez-à-vez seria, sem dúvida, a melhor das soluções. Sem remoques, com veemência, não tentando encontrar gradações de estupidez, mas sempre com enfoque na defesa da vítima. Parece-me bem.

PS - Não há nada que me dê mais calma do que 'O Nascimento de Vénus' de Botticelli.


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