sexta-feira, maio 28

Classe média



Portugal está cheio de gente profissionalmente desqualificada, que ganha rios de dinheiro a fugir aos impostos, e que não distingue Armani de cholé. O bando de iliteratos, videirinhos e piolhosos é tão próspero na República como nunca o pensou ser no tempo de el-Rei Pasmado ou no do Estado Noite. No resto, são iguais. Como iguais são os possidentes, sempre prontos a viver à gola do erário público, e dele maledizer quando lhes dá jeito. O Estado, esse, tem as costas largas e a bolsa curta. Mal chega esta, aliás, para dar de comer às sanguessugas, quanto mais para cumprir as funções que lhe são confiadas. O País não presta, nunca vai ser diferente, toda a gente sabe disto.

Por isso, não é do todo, mas de uma parte dele, que hoje aqui se fala.

Há algum tempo, amoedado com uma herança tristemente precoce, tentei dar-lhe ao menos vocação de alegria, entrando com uns milhares de contos para a compra de uma casa nova. Comprei já com as paredes levantadas, mas com muito acabamento em falta. 'Tudo bem', dizia o construtor, 'isto resolve-se em dois meses'. Nem de propósito, dois meses depois era Setembro, e eu - e muito mais a dona dos restantes 50% da sociedade - já me revia no prazer burguês de uma festa de rentrée dada aos amigos, coisa só mal-acomparável à boda que, anos antes, nos tinha unido por um tempo cósmico a tender para sempre.

Mas as aldrabices de um pé-de-gesso qualquer que sub-empreitava a função, mais os muitos afazeres do magno pato-bravo que liderava o evento, mais o desleixo do canalizador, a asneação de um técnico certificado para ligar o gás, e uma quantidade de etceteras adiante, deitou as coisas para meados de Novembro. Com um ultimato claríssimo, fiz saber ao chefe da pandilha que tinha mudança marcada para daí a uma semana. Ou isso, ou pagar o sinal em dobro, que é o que está na lei.

O homem já deve ter ouvido letra semelhante as vezes que baste para saber que esta rapaziada da classe média o que quer é conforto e a obra feita. Enquanto eles, depois do fio de ouro comprado, do curso ao filho mais velho se este tiver talento, de uma eira lá na terra e de um Mercedes a diesel, já não sabem em que feliciedade investir. Como o dinheiro lhes sobra, passam o tempo a divertir-se enganando os coitados que julgam que estas coisas dos prazos são para cumprir. Para eles, o tempo passa ao ritmo da letra no Montepio ou na Nova Rede, enquanto a matrona rançosa faz frioleira no lugar do morto.

Nestes entretantos, o abrantino disse que sim, que 'desculpasse o atraso, não foi de propósito'. Quero lá saber se foi de propósito!

Entrado na casa, estive sem dormir uns dois ou três dias, tal era o cheiro do soalho recentissimamente aposto, e ademais predicado com tinta protectora, ou coisa que o valha. Quando o aroma químico se tornou suportável, em breve vieram ao de cima as malformações da obra chã. Reclamação imediata, e 'calma, que isto resolve-se'. O homem das tábuas rasas tinha, ao que parece, trabalhado sob pressão, porque lhe tinham dado prazos para cumprir, que é coisa de que nenhum artista gosta, ande de pincel na mão ou a afagar de joelhos. Com o tempo, é claro, habituei-me às imperfeições da madeira. Sempre é melhor que ter de tirar tudo de casa outra vez, para que o recorrente profissional tente sanar a asneira.

Vista da casa anterior, esta parecia o Tejo em comparação com o rio da minha terra, e eu, nestas coisas, tenho tendência a preferir o Tejo. Por isso - coisa já pensada e devidamente provisionada -, lancei-me à tarefa de encher os espaços vazios com o que lá mais falta fazia. Um sofá novo, por exemplo. No que eu fui cair...

Recentemente apresentado aos prazeres caseiros, gastei algum tempo na escolha. Marcado o alvo - uma coisa carota, mas se calhar menos do que devia -, acertei contas com um rapaz de ofício de porta aberta e nome estrangeiro, daqueles que não sei se melhor faria Albuquerque em ter-lhes dado esposas ou açoites. Aquilo fica para ali no meio de uma versão nacional dos clusters porterianos, onde porta sim, porta não, é loja de móveis. Um mês, mês e meio, era o tempo que o terno demoraria a entrar-me pela porta, tanto mais que vinha de Espanha, e as peles, e sei lá mais o quê.

Dois meses depois do prazo acordado, e muitos telefonemas entre o nervoso e o ameaçador pelo meio, lá estava o sofá. Mal me sentei, a falta de molas do mesmo deu-me um estalo na alma que me levantei num segundo. 'Isto aqui não fica!', disse eu. Fica, fica, dizem os operários da entrega, isto nem sequer é nosso, só nos mandaram cá pô-lo, 'se não se importa assina aqui para comprovar o serviço'. 'Então eu assino, mas telefono já para o tipo que mo vendeu'. Contactado o cara de torresmo de Alicante, ele lá foi dizendo que, 'bom, estas coisas é raro terem defeito, tem a certeza de que?...'. Claro que tenho a certeza, porra! 'Então ´tá bem, vamos aí ver o que é que se passa'.

Algumas semanas depois, o tipo foi lá a casa. 'Ó diabo, isto tem mesmo defeito'. Pois tem, já lhe tinha dito. 'O melhor', reflectiu o bípede, 'é mandá-lo para a fábrica para compor'. E foi. Mais dois meses e o sucessor vinha pior do que a versão primogénita. Mas como à terceira é de vez, cinco meses depois lá estava em casa um novo. É o que ainda hoje lá jaz. Escorreito? Nem por perto, mas o suficiente para a mulher me ter pedido para não fazer mais ondas.

Chegou então a vez dos móveis. Os que tinha, ou eram desajustados no espaço, ou velhos. Ouvido o conselho de amigos já testados nestas coisas do matrimónio e casa posta, escolhi um fulano com sotaque à Porto, que até trabalha para gente fina, coisas de arte e cena, enfim... Fiquei com boa ideia do fenómeno, que não se enrascou sequer com um heterodoxo desenho que lhe mostrei, e que correspondia a um móvel grande de sala. 'Daqui a dois meses está pronto', diz o morcão. Fiz as contas: isto é homem do Norte, não é como aqueles calaceiros de Lisboa, no máximo demora mais quinze dias, vem mesmo a calhar para o aniversário cá do 'je'. (N.R.- princípio de Maio). Três meses depois, o madeireiro não tinha sequer olhado para o projecto, quanto mais começado a talhar as tábuas. E como a fábrica (?) fechava em Agosto, agora já não havia tempo, 'talvez lá para Setembro se arranje'. 'É muito trabalho sabe?'. Então para que é que aceitou a encomenda? (Que pergunta burra, o homenzeco era lá capaz de fazer previsões?). Há pouco tempo, despedi a bosta de carvalho e cerejeira aos berros, mas móveis é coisa que ainda não tenho.

Agora vou meter-me noutra. A floreira. Digna de jardim botânico, aquilo parece uma piscina de treinos. A mulher já anda estusiasmada, que é como eu gosto de a ver. A ver se não murcha.

Para a próxima conto-vos a história do reóstato que se queimou três vezes.


1 Comments:

As vicissitudes malfadadas do lar!...
Conforto, a quanto obrigas!
A tua má sorte rendeu-nos um texto delicioso (espero não ter q dele pagar a minha quota parte de IVA...).
A hippy divertiu-se e agradece.

Kisses da baby

By Anonymous Anónimo, at junho 26, 2004  

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Comments:
As vicissitudes malfadadas do lar!...
Conforto, a quanto obrigas!
A tua má sorte rendeu-nos um texto delicioso (espero não ter q dele pagar a minha quota parte de IVA...).
A hippy divertiu-se e agradece.

Kisses da baby
 
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