sábado, maio 29

BOS entrevista Clark59

E lá vai a segunda. Recordando os incautos, a semana passada eu entrevistei o BOS. Agora invertem-se os papéis.


Porque é que não gostas de ser apodado de esquerdista?
Essa é de resposta simples: porque não sou! Um esquerdista apoia revoltas sem pensar nas consequências. Eu não. Um esquerdista não toma banho. Eu tomo. Um esquerdista mete no mesmo saco todas as direitas. Eu não meto. Quem disse que eu era de esquerda foste tu! É óbvio que não tenho dúvidas de que, nos aspectos sociais, toda a história do século XX foi escrita pela esquerda. A direita, a esse propósito, é um zero, ou menos que isso. Mas já nas questões económicas sou um bocadinho mais céptico em relação às vantagens da ‘canhota’.

Estás a ver…!? É típico da esquerda dizer que a direita é um zero em matéria social. A verdade, porém, é que foram governos de direita quem no século XX ofereceu aos trabalhadores várias regalias importantes, como o direito a um mês de férias e a esquemas de segurança social. Para além disso, quem escreveu «Je suis économiquement de droite et socialement de gauche» foi o Le Pen. Folgo em saber que lhe lês os compêndios…
A direita que eu conheço, nos últimos tempos, diminuiu o subsídio de
desemprego, fez um ataque cerrado ao subsídio de doença, e prepara-se para fazer uma interpretação enviesada da lei que dá direito a 25 dias de férias. A direita que eu conheci, noutros tempos, tratava os funcionários públicos como escravos, não reconhecia o direito de voto às mulheres e proibia a greve e o associativismo não corporativo.
O Le Pen disse isso? Ele anda a ler o que eu escrevo...

Que balanço fazes dos 30 anos deste regime?
Nota 10, de zero a vinte. Fui favorável à descolonização (aliás, nunca lá devíamos ter posto os pés, mas isso é uma ideia complexa, que guardo para depois), mas o timing foi um desastre. Só os portugueses é que se lembravam de fazer uma revolução em plena recessão dos anos 70. Tivemos direito ao ‘dois-em-um’: mudança de paradigma político e descontinuidade económica, imposta pelo exterior. Uma salgalhada, em termos teóricos! Mas a democracia é preferível àquela ‘coisa’ anterior. Ainda bem que estamos de acordo, e que tu também não tens saudades do Oliveira de Santa Comba!... O melhor de tudo foi a adesão à CEE. Eu, neste particular, destaco as hipóteses de viajar mais facilmente por uma Europa mais moderna (que antes não tínhamos, ou tínhamos em menor grau) e o cosmopolitismo que daí adveio. Infelizmente, em vez de nos tornarmos ‘brancos’, tornámo-nos mais dependentes. Mas isso é culpa do Miguelismo ainda reinante (versão coçar os tomates em público). Mas já reparaste que há menos mânfios a escarrar na rua?

Escarrar está fora-de-moda; a malta agora gosta de mijar nos postes de electricidade – o que, para além de ser muito mais moderno, é muito mais democrático… Diz-me uma coisa: se eu fosse governo, emigravas?
Tu é que sabes! Explica-me lá como é que tratavas as pessoas como eu, se fosses governo?

Tratava-as bem – e tu sabes disso! Tenho-me batido contra todas as censuras e perseguições políticas, que nos dias de hoje vitimam sobretudo a minha gente. E tu, se fosses governo, qual era a primeira medida que tomavas?
A pergunta mais difícil. Em primeiro lugar, como já disse algures, mudava o Ministério da Educação de alto a baixo. Leis mais simples de mexer, como a do arrendamento urbano, eram mudadas. Os políticos passavam a ganhar decentemente (ganham uma merda). O Governo era eleito por sete anos, e os círculos eleitorais eram alargados. Se ao fim de sete anos houvesse um velho a morrer de fome, demitia-me.

Como as eleições europeias estão aí à porta, não resisto: que opinião tens sobre o federalismo?
‘Europa, Europa, que eu teimo em cantar-te versos!
Quem virá exorcizar-te a morte?...
Eu andarei repartindo ao mar fados e rosários de mel;
Prescruto as sereias que por ti virão assomar de amor
ao Cabo da Roca’

Quando é que publicas os teus poemas?
Já pensei nisso duas ou três vezes, mas por razões diferentes falhou. Como o Saramago ganhou o Prémio Nobel há pouco tempo, acho que vou esperar mais alguns anos...

Regresso à questão federalista: a Turquia deve entrar na União Europeia?
É um caso complicado. Não tenho nada contra os turcos modernos, mas não me esqueço da História. Acho que lhes cabe a eles demonstrarem que a pequena parte que geograficamente têm do lado de ‘cá’ conta mais do que o imenso território do lado de ‘lá’. E até hoje, fora Ataturk, não o têm conseguido.
Há ainda outro problema, de ordem pessoal. Eu ‘sou’ sérvio e arménio. Podem os turcos dar-se com gente como eu? Mas não devemos ostracizá-los. Esse seria o maior dos erros. O mesmo se aplica a Marrocos, e a outros países de maioria islâmica.

Se fosses impedido de residir em Portugal, em que país gostarias de viver?
Se eu fosse impedido de viver em Portugal, viveria de certeza muito mal. Que mal me perguntes, ‘a minha Pátria é o cozido à portuguesa’ (o verdadeiro ópio do povo). Por razões de coração, língua e gustativas, nunca me consegui afastar daqui mais de três semanas seguidas. Respondendo (porque sou mais disciplinado nas entrevistas do que tu…), talvez o Canadá, certo Brasil, e (adivinha!!!) a Suécia, de preferência a ilha de Gotland. E talvez a Espanha, porque fica aqui mais à mão.


No estatuto editorial do teu blogue, escreveste que “a coerência não passa de um vício a que não pretendo ceder”. Ainda há esperanças de que te convertas ao nacionalismo?
Vocês (da direita não democrática) apoderaram-se da expressão ‘nacionalismo’. Fica-vos bem. Mas ‘quem não vos conhecer que vos compre’… Fora isso, eu não tenho de me converter, porque já sou nacionalista.

Nem eu sou da direita não democrática, nem tu és nacionalista. Serás patriota, quando muito – um ‘enfant de la Patrie’, como reza a Marselhesa. O nacionalismo é uma ética para a qual cada nação, enquanto nação, constitui um valor supremo. Tu, que eu saiba, colocas o indivíduo acima de tudo.
Eu tenho uma Nação e uma noção sobre ela. As duas coisas não se excluem uma à outra. Ó jovem!, eu fiz o juramento de bandeira. Fala em defender a Nação, e acaba assim: ‘Mesmo com o sacrifício da própria vida’. Tu não tens para a troca!

Não digas asneiras! Estou disposto aos mesmos sacrifícios que tu. De resto, o que não falta por aí é quem tenha jurado bandeira, para depois… Adiante. Achas que este Portugal é um Estado viável?
Tem de ser! Por duas ou três razões essenciais: em primeiro lugar a língua. Nunca conheci Nação feliz que não pudesse exprimir-se no seu próprio idioma. Depois, a actual deslocalização de empresas faz perceber que mais vale um patrão presente que um patrão em Ostende. Falando mais a sério: estamos na época de estabelecer parcerias com quem nos interessa, não com quem nos é imposto. É isso a viabilidade do pós-império.

Há quatro ou cinco meses cultivavas certo cepticismo em relação à blogosfera. Já estás convencido das virtudes deste meio ‘umbiguista e livre’?
‘Mea culpa’ (em catolicismo moderno, com licença do JSarto). Isto é o
máximo!

Porque é que ‘linkas’ tantos blogues de mulheres?
‘Tantos’? Eu acho que ainda são poucos. O mundo sem mulheres não tem piada nenhuma. Nós homens, quando falamos uns com os outros, andamos sempre à volta dos mesmos temas. Quando entram mulheres (e então se tiverem dois dedos de testa, ainda melhor) a coisa muda indeclinavelmente. Não conheço nada mais perfeito do que uma mulher. Por falar nisso, já as leste? Todas cinco estrelas, digo eu.

Quais são os principais defeitos da mulher portuguesa?
Posso passar à frente? Ou fazes-me uma entrevista de doze páginas?

Reformulo a pergunta. Dizia o Almada Negreiros: «As mulheres portuguesas são a minha impotência». Assinas por baixo?
(Ainda) não. As mulheres portuguesas evoluíram muito desde esse tempo, e penso que só estavas a falar em questões físicas e sexuais. Principalmente nos últimos 20 anos, com um razoável atraso em relação às restantes europeias, mas o País é assim, não é culpa delas. Quanto ao principal defeito ‘são’ três: dificuldades de concentração em coisas simples normalmente efectuadas sem roupa, alargamento precoce ao nível do Equador e pêlos a mais em sítios dispensáveis.

E, já agora, as principais virtudes.
A principal virtude da mulher portuguesa chama-se F., e é a minha mulher.

Qual é a tua personagem histórica favorita?
Ó pá!... Português: D. João II, e o seu gene mais próximo, Henrique (o Navegador). Universal: Jesus Cristo, William Wallace, Guttenberg, Leonardo da Vinci, W. A. Mozart, Thomas Jefferson, Florence Nightingale, Frederico Fellini… e outros tantos.

Jesus Cristo e William Wallace…?! Caramba, menino, já puseste um ‘poster’ do Mel Gibson no quarto…?! E o teu herói de ficção? É mesmo o Clark Kent?
Não tinha pensado nessa do Mel Gibson, é uma coincidência, embora goste do actor. Não fui ver ‘A Paixão’, nem tenciono.
O Clark Kent é uma representação interessante. É o jornalista rápido,
incorruptível, apaixonado pela notícia. A minha fixação no Clark é a mesma (!) que sinto por S. João Baptista: aquele que vem antes do omnipresente.
Salvaguardadas as distâncias culturais, hás-de convir que se trata, no meu caso, de amor pelo terráqueo, em confronto com o sagrado. O homem em vez do mito. E isso, se calhar, é de esquerda.

0 Comments:

Post a Comment

Comments: Enviar um comentário

<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

´ BlogRating