terça-feira, abril 27

Portucel, tal como previsto

Há cerca de mês e meio, mais coisa menos coisa, escrevi isto. Hoje está na hora de (re)publicar. O meu País nunca mais aprende

"O júri do concurso para a privatização parcial da Portucel resolveu colocar em primeiro lugar a proposta que a Semapa, com o respaldo da CGD e do BES, apresentou. Dificilmente qualquer analista atento ao processo poderá avaliar da bondade desta decisão. Aqueles que se debruçaram sobre o problema, e que tentaram informar sobre cada uma, e todas, as ofertas em confronto, têm uma ideia razoavelmente formada sobre quatro das cinco entidades concorrentes, e do que cada uma delas pensa que poderá carrear de interessante ao futuro de uma das mais importantes empresas nacionais. Em termos sintéticos, a Mondi abre portas ao mercado do Leste europeu, a Domtar ao da América do Norte, a Lecta tem uma integração de activos evidente e a Cofina, sendo um parceiro nacional, conhece o sector. A Semapa, por tudo o que (não) se conhece da sua proposta, seria um óbvio outsider em todo o processo, e estaria condenada à quinta e última posição da gradação que cabia ao júri estipular. Não tem experiência, pelo menos nas últimas décadas, no sector do papel e da pasta, não tem dinheiro nem capitais próprios para se abalançar a uma aposta deste género, sofre actualmente, numa das suas principais participadas (a Secil), de uma indefinição accionista preocupante. Por tudo isso, desde o princípio da actual fase de privatização da Portucel que se instalou a dúvida entre a comunidade que segue o dossier em causa: o que é que a Semapa está a fazer neste «filme»?
Forte na área de cimentos e produtos associados, a Semapa tinha tudo para vencer uma privatização anterior, a da Cimpor, na qual, associada a um dos maiores grupos mundiais – os suíços da Holcim, ex-Holderbank – aparecia, até quase ao último minuto, como o candidato mais bem posicionado. Num dos mais vergonhosos volte-faces da política económica portuguesa de todos os tempos, a Semapa acabaria por perder, e, obviamente não conformada com tal desfecho, tem-se desdobrado em processos jurídicos (uns concretizados, outros, valha a verdade, só ameaçados, mas sempre com ampla cobertura jornalística) contra a Cimpor, o Estado e o que mais se interponha entre a sua vontade (legítima) e o desenlace burlesco da citada privatização. Dizem as boas e as más-línguas que o Estado quer ressarcir a Semapa do quase esbulho a que esta foi sujeitada na tal privatização da Cimpor. Não há nada de mais errado. Porque, tudo visto, é quase impossível dizer que dos diversos interesses em jogo o mais importante não é o da Portucel, enquanto empresa líder do sector que integra, com capacidade de internacionalização óbvia, e possibilidade de se afirmar em termos globais como muito poucas outras companhias de raíz portuguesa terão. Não se pode combater o eventual «crime» (não ter entregue a Cimpor à Semapa) com outro que se afigura maior: pôr uma empresa de cimentos a liderar uma outra de papel e de pasta. Nem as ideossincrassias dos sectores são semelhantes. Corre-se o risco de, em pouco tempo, se chegar à conclusão que se resolveu a vida à Semapa (a Portucel é uma empresa cuja criação de valor para os accionistas está fora de causa) mas que se perdeu uma oportunidade ímpar de proporcionar à papeleira portuguesa a possibilidade de dar um salto histórico. Foi isso mesmo que Carlos Tavares confidenciou aos jornalistas, quando, confrontado «com tantas e tão diversificadas estratégias para a Portucel» - palavras dele -, se mostrou particularmente satisfeito por estar à beira de encerrar um dossier que no passado tantas dores de cabeça lhe terá dado.
Que o júri terá razões que a razão desconhece, ninguém teem hoje dúvidas. Que o Governo, e neste caso o ministro da Economia, tem a última palavra, é facto de que não será legítimo duvidar. Portugal tem aqui uma nova oportunidade para demonstrar que, por cá, os concursos não são ganhos na secretaria, e que os mais dotados e credíveis vencem sempre. Isto está longe de ser um dado adquirido da nossa história recente, mas está-se sempre a tempo de inverter uma «tradição», que tem feito da política uma arte menor, onde a intriga e o compadrio falam quase sempre mais alto que a competência e o interesse nacional.
Mas há dados que podem não fazer fenecer a esperança, o primeiro dos quais é constatar que, neste particular, Durão Barroso e o seu Governo ainda permanecem (que se saiba) sem sombra de pecado. Se decidirem como tantos dos seus antepassados, então teremos apenas uma certeza: não vale a pena jogar em Portugal, porque os dados estão viciados à partida. As consequências de um tal desenlace serão dramáticas para a credibilidade – já tão abalada – do País."

Como é já sabido, e foi amplamente antecipado pelos jornais (sempre não confirmado pelas fontes), a Semapa ganhou a privatização da Portucel. Sei que essa não era a decisão preferida por Carlos Tavares, tal como Pina Moura também não queria entregar a Cimpor à Teixeira Duarte. Porque é que eu não nasci sueco, foda-se!?

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