domingo, abril 25

O meu 25 de Abril (II)

A professora Teresa era uma chata. Cinquenta anos com muito pó na cara, mais o perfume adocicado, a lembrar-me as velhas à saída da missa. Devia ter sido bonita. Mas tinha aquele traço desessencial num professor, que é o de não ter paciência nenhuma para os miúdos. Ao terceiro tempo lá estava, esta não faltou, ora porra! Lição diferente de História (era o que ela dava) ía calhar ao povo nesse dia. "Ainda hão-de ter saudades!", dizia. De quê?, a gente não tem saudades de nada, temos 14 anos! "O mais normal é que seja instalada uma ditadura militar! O meu marido [lá vinha o marido, santo homem devia ser, estava sempre a ser citado, por tudo e por nada], que é piloto da TAP [tá bem, eu nunca andei de avião], já viu coisas destas".
Eu é que nunca tinha visto coisas destas, tais como o Nelinho dizer que o pai era do Partido Comunista há mais de dez anos (e como é que a gente não sabia?), o polícia a perguntar se estava tudo bem com a gente, em vez de nos enxotar do jogo da bola, ou as raparigas a misturarem-se no recreio connosco. As raparigas, quando estão todas juntas, são muitas, é difícil olhar só para uma...
Mas o que eu queria mesmo era só cá comigo. Por isso, mal pude, deixei a malta. Fui buscar a bicicleta e desci a rua. Nada, ninguém me mandou parar... Ganhei coragem para a segunda experiência. Cheguei ao parque. Pisei a relva. Olhei em volta. Nada...
A professora Teresa dizia: "Quem não gostava disto antes ainda vai ver coisas piores". Pior não era de certeza, se se podia pisar a relva, ao menos uma vez na vida.
Agora sou crescido, já não piso a relva do jardim.

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