domingo, abril 25

O meu 25 de Abril (I)

Tenho uma tia freira-professora, que pelos anos setenta se dava bem com o Miguel Torga, o Rui Namorado e outros coimbrenses ilustres, pouco amigos do regime do 24. Das esquerdas sabia ela, que albergava há anos estudantas da faculdade, num lar do qual era directora, ali à Aires de Campos, perto do Penedo da Saudade. A primeira vez que vi um tanque de guerra foi lá na rua, am Abril de 69. Andavam à procura de um patife qualquer, já não me lembro se do Alberto Martins se do Celso Cruzeiro, que tinha pedido abrigo a uma namorada arranjada à pressa por detrás dos portões do lar das religiosas. Coisa que ela, a minha tia, não consentia, não via e tinha raiva a quem visse.
Foi a minha tia que nos deu lá em casa o 25 de Abril. Às tantas da manhã, telefona à minha Mãe, irmã dela: "Oh Cina, vê lá os miúdos, olha que houve um Golpe de Estado, ainda ninguém sabe onde isto vai parar!". "- Bem", pensou a minha Mãe, "se houver alguma coisa lá na escola lhes dirão", e deu-nos o pequeno-almoço, a mim e à minha irmã mais nova, como de costume.
O professor António, que dava aulas de português e conduzia uma coisa cultural semi-tolerada lá na terra, faltou à primeira hora. "Alto, que aqui há gato", pensou a rapaziada. O gajo, o mais certo, era estar metido nisto, disse o Mário,que já tinha reprovado e era assim mais crescido. Que se lixe, um feriado ao primeiro tempo era coisa para ir jogar à bola.
Nisto passa a Nívea, coisa inusual por aquelas bandas e àquela hora. Os polícias falaram com a gente, perguntaram se estava tudo bem. "A gente não fez mal nenhum, ó sô guarda". Não era isso, era para saber se estava mesmo tudo bem. Porque raio é que o polícia havia de querer saber se estava tudo bem?

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