sábado, abril 3

Epístola

Demasiado ocupado com os casos do dia, quase que me escapam as questões do céu. Pior do que isso: passo por sítios onde nunca fico, terras onde fui mas nunca estive, ideias que me fogem a correr. Estranha história esta, a minha recente. Mas agora tenho um tempo de parar. Aproveito para falar convosco. De quê? Do céu, como já disse.

Ao contrário do que pica nove-às-cinco, o céu é intemporal. O que não se faz hoje, amanhã terá o seu tempo. Esta é a fuga da prisão primeira, mãe de todos os pecados. O tempo marca a maior parte dos sinistros de que na Terra há memória. E isto porquê? Porque na vida aprendemos, cedo ou tarde, que não há nada que nos escasseie mais que o tempo. Enfrentando uma barreira que é a morte, todos os dias são poucos, seja para brincar, fazer como os outros ou realmente inventar a diferença. Não há nisto que vos digo qualquer hierarquia. Apenas diferentes tempos, a que cada um deve prestar homenagem e talento, ou, sendo caso disso, escolher prioridades. É convosco. Mas nunca por nunca a vassalagem.

Depois, há o aperfeiçoamento. Se se sabe ao que se vai, vale mais alcançar o que à mão se tem, desde que à mão algo fizermos para que nos chegue. Não sendo obrigatório, fica bem e ajuda ao tempo que se vive, a nós e aos outros. Também neste espaço há um lugar para o céu. Por exemplo: não é que o melhor de nós seja sempre o que vai primeiro, mas não vos fascina a ideia? Então, mais vale que ele (o melhor, o precursor) saiba o que faz. Mas a sua dimensão só está completa quando não se esquece nem do outro nem do que nessa atitude se persegue. Do céu é também isto.

Pode ser - terceira parte - que a vós vos seja dado um comando. É o mais estranho dos comportamentos humanos, mas deve ser encarado seriamente e com reconhecimento, desde que em bases de verdade seja atribuído ou alcançado. Para que serve?, deveis perguntar-vos em hora segunda, logo após a aceitação do cargo. Para fazer um pouco mais de céu, digo-vos eu. Mandar pode ser, por muito que custe aos meus contemporâneos, uma arte e uma dádiva, antes que uma sorte. Deve antes demais servir para tirar da frente o que não presta, os que não prestam atenção à vida. Dir-me-ão que é solidão. Não forçosamente. Aquele que manda mostra, como atitude mais nobre, o céu que escapa aos outros. E se de céu se trata, bem se trata.

O céu é, pois, a liberdade de ser e a aceitação de ser. Uma sem a outra não têm razão de existir. Mas primeiro é preciso combater o inferno que há nos outros, naqueles que não divisam a vantagem do silêncio quando de silêncio se trata, de música quando há salão de baile. Há nestes tempos ainda tempo para o combate. Nâo convém, contudo, perder de vista o sítio - o céu. Porque eu pergunto: quem alcança o que não almeja, quem chega ao que não conhece ou ao que não inventa? Por isso vos exorto: não vislumbreis menos que o céu, para que nada vos faça fenecer no tempo que vos resta.

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