sexta-feira, abril 30

Vou sair


Vou-me embora do País com dois milhões de pobres e que tem uma auto-estrada entre Vila Real e Castro Daire. Volto quando Maio já for maduro. Talvez escreva.

Criticações

"Eu falo com voz grave e pausada. Faço-o entre o registo da volúpia (porque eu amo o que sinto quando falo, saiba ou não sobre o que digo) e a tortura de pensar na fealdade indecente dos que me escutam ou lêem. Talvez nem me percebam… e ainda bem. Mas tenho que ter este registo, para que ao menos eles sintam o encanto, e a coluna me preservem, comprando o produto que me enquadra. Aprendi a ser assim. Sou crítico, ganho dinheiro com isso.
Perdi o prazer de ler o que me interessa, para passar a ler o que interessa aos outros. Sou uma apostilha de capa, ou contra-capa, que sustenta a necessidade de obter (pagando) aquilo sobre que falo.
Falo com voz grave e pausada. Dou exemplos, faço comparações, exerço a estética, desenlaço em inconclusões.
Eu sei que podia ser de outra maneira. Mas quem me lia ou me ouvia? A pagar, só se fosse eu a uma rameira."
E ele disse

quinta-feira, abril 29

Reflexão politicamente incorrecta (como eu gosto)


Gostaria de fazer uma homenagem àqueles que, contrariamente a mim próprio, não acham piadinha nenhuma ao outro sexo. Bem hajam!
Começo por enfatizar a crueldade do Criador, que mesmo na homossexualidade pôs as mulheres numa situação de inferioridade a todos os títulos deliciosa e anti-democrática. É sabido que, com honrosas excepções, nenhuma fufa que se preze seria alvo de avidez masculina; são, quase todas, uns cromos de primeiríssima apanha, feias e mal ajeitadas. Ainda bem que assim é. Já no que diz respeito aos panascas, é raro não encontrar por perto uma mulher que, ao vislumbrar um destes, não exclame: «- Que desperdício!», aludindo obviamente ao seu aspecto cuidado, aos seus traços perfeitos, à sua sensibilidade apurada.
Desta brevíssima análise concluo que os homens estão-se bem borrifando para a quantidade de fufas que haja – desde que, obviamente, continuem a ser do género hoje em dia mais numeroso –, enquanto as mulheres sacrificariam de bom grado os machos brutos que «escolheram» por um terno panasca que, obra do Divino, decidisse mudar de opção. A eterna insatisfação feminina e o propalado pragmatismo masculino têm aqui alguma explicação.

Foto: Colage.org

Quero ficar sempre emigrante

O Abrupto passou o 25 de Abril em Puteaux. Que o pariu!

Uma bola à trave, um penalti falhado, um frango e um auto-golo

Acham pouco? É quase o pleno das asneiras que se podem cometer num jogo de futebol. E mesmo assim empatámos. Quando começarmos a jogar como deve ser...
Os suecos são uns quadradões. No futebol como em (quase) tudo o que é alegria de viver. É por isso que eu gosto deles. Se eles não fossem assim, como é que as mulheres deles haviam de gostar (tanto) de nós? Sverige flicke, Jag elskar dag!!

quarta-feira, abril 28

O Deci-metro

Há coisas que fazem trinta anos e ainda não estão cumpridas, há outras que vão nos quarenta e tresandam a adolescência. O Metro de Lisboa, que já tem idade para sair de casa (Odivelas e o mais que se verá), ao fim destes anos todos ainda só conhece metade da cidade onde nasceu. Chega ali ao Rato (e, mesmo assim, há pouco tempo) e pára. Porquê? Não sei. Como não o devem saber os milhares de habitantes a quem esta empresa pública faz de parvos.
O Metro de Lisboa é uma incidência da Oriental Terra Lisboeta. A Oeste, nada de novo. Mas não era para ser assim. Há anos, havia um projecto de o levar até Miraflores (http://www.urbanrail.net/eu/lis/lisboa.htm), pelo menos, mas no meio das barracadas do costume (muda o Governo, os projectos ficam na gaveta, enfim), a coisa ou ficou para as calendas gregas ou foi, simplesmente, deitada ao lixo.
Digam o que disserem, isto não é natural. Já nem me quero comparar com Londres, Madrid ou Paris (mas podia). Mas vejam o caso de Praga, por exemplo, onde a rede chega a todo lado e mais algum; fiquei uma vez num hotel dos subúrbios (tipo para aí na Parede, em relação ao Rossio), e, olha só, andava de metro. Ou Estocolmo http://www.mikitravel.se/imd347.HTML , cujo metro tem mais de 120 estações (fora as ligações com outros transportes de rede ferroviária). Os funcionários da Infineon (ex-Ericsson Microelectronics), que fica aí a meia hora do centro da capital sueca, vão de metro para Estocolmo E DEPOIS DA ESTAÇÃO ONDE ELES ENTRAM AINDA HÁ MAIS DUAS ATÉ AO FIM DA LINHA.
Nós sabemos o amor que os portugueses têm ao tacho público e a pouca noção de serviço que, uma vez lá apanhados, desenvolvem. A este propósito, o Metro http://www.tcontas.pt não é excepção. Mas quem cala consente. Eu não.


A cidade da luz - Estocolmo


West Side Story

O Claque Quente vai iniciar uma nova era. A partir de amanhã, é lançada uma catilinária contra o Metro de Lisboa. E ao mesmo tempo uma acção popular. A ideia é simples: porque é que o Metro ignora a região Oeste da cidade? Sabemos que em tempos já houve planos de fazer chegar o comboio até Miraflores, pelo menos. Onde estará enterrado o projecto? Será que a gente deste lado não paga impostos? Cidadãos da Lapa, Estrela, Madragoa, Necessidades, Alcântara, Santo Amaro, Junqueira, Tapada, Ajuda. Belém, Restelo, Caselas, Miraflores, Algés, Linda-a-Velha, não tendes nada a dizer?
Será que, para nos fazer ouvir, tenho que chamar o Super-Homem?

De repente, abruptamente

Porque é que o "Abrupto" está em todo o lado e eu não? Que raio de cão é ele, que raça tem, que mais do que a mim a ele cruzam? Ele nem sequer diz nada. Mas nada, nada de jeito, olhem lá para a vacuidade do marmeleiro. Mas não há gato sapato que o não tenha no quarto de hóspedes. Será que o barbas de Mefistófoles encanado em rive gauche aggiornata traz visitas? Deve ser isso. Mas não vêem que o homem está farto? Poupem-no.

terça-feira, abril 27

A fuga aos impostos

- Sabes, o meu problema não é ser bêbado, é ter nascido bêbado num País desorganizado. Olha lá para a Inglaterra e para os países nórdicos: aquilo está cheio de bêbados e funciona. Porquê?

- Porque os gajos só bebem ao fim-de-semana, essa é que é essa. Enquanto tu...

- Nada disso. É porque os ricos lá do sítio são gente séria, e se mijam fora do tinteiro têm fiscais à perna, não é como cá. A malta lá só tem que cumprir ordens, porque os bosses tratam do resto. Aqui não, se a gente aparece de ressaca inventam logo que é falta de empenho profissional, e que isso baixa a produtividade, o caralho! Quando o que eles querem mesmo é tirar a chuva do capote.

- Diz-se: sacudir a água do capote...

- Ou isso. Agora vê o meu caso. Eu estou, por assim dizer, autorizado a apanhar uma piela de quinze em quinze dias. A mim apetece-me duas por semana – tu sabes que eu sou controlado...

- Sim, sim, quando não te passas

- Eu sei, é isso, por isso é que ‘nem tanto ao mar nem tanto à terra’. Optei - como agora dizem os paneleiros para justificarem o facto de gostarem de levar no cu - por apanhar uma por semana. De preferência sem a mulher estar a ver, porque eu tenho uma tendência do caraças para a tratar mal quando bebo. Nem é bater-lhe, embora já tenha acontecido uma vez ou duas, nada de grave.

- Oh pá, deixa-te de merdas, bater numa mulher é bater numa mulher, é grave por si só. Querias o quê, partir-lhe as duas pernas? Assim já era grave...

- Tu percebes, não desconverses. Mas estava eu a dizer. Uma bebedeira por semana e está tudo bem. Só que nem isso me deixam, porra. O mundo está cheio de meninos que não bebem. Não compreendem que eu já nasci assim, e que a culpa não é minha.

- Ouve, a culpa até pode ser do São Judas Tadeu, mas só tu é que podes resolver o problema. Com força de vontade, sabes? Já ouviste falar?

- A força de vontade a puta que te pariu! Isso é bom para carregar camiões, ou para ganhar jogos de futebol, mas não te impede de beber.

- Tu é que sabes…

- Mas estava eu a dizer: porque é que tu achas que os bêbados do Norte da Europa não têm os problemas dos de cá? Porque os patrões deles pagam impostos!

- Essa agora vais ter de explicar melhor! Tu tens cá uma lata!

- É, é porque eles pagam impostos. Vê só isto: eles pagam impostos, logo o Estado tem dinheiro para as questões sociais. Por exemplo, para aturar bêbados como eu ou piores. Têm dinheiro, também, para escolas, hospitais, tudo. Por isso, lá nesses sítios, mesmo aqueles que lhes dá na veneta serem marginais, pensam duas vezes.

- Por acaso já ouviste falar que o walfare state está pela hora da morte…

- Tudo por causa da fuga aos impostos, porra!

Orquídeas selvagens, bem-vindas


Para a Joaninha

Portucel, tal como previsto

Há cerca de mês e meio, mais coisa menos coisa, escrevi isto. Hoje está na hora de (re)publicar. O meu País nunca mais aprende

"O júri do concurso para a privatização parcial da Portucel resolveu colocar em primeiro lugar a proposta que a Semapa, com o respaldo da CGD e do BES, apresentou. Dificilmente qualquer analista atento ao processo poderá avaliar da bondade desta decisão. Aqueles que se debruçaram sobre o problema, e que tentaram informar sobre cada uma, e todas, as ofertas em confronto, têm uma ideia razoavelmente formada sobre quatro das cinco entidades concorrentes, e do que cada uma delas pensa que poderá carrear de interessante ao futuro de uma das mais importantes empresas nacionais. Em termos sintéticos, a Mondi abre portas ao mercado do Leste europeu, a Domtar ao da América do Norte, a Lecta tem uma integração de activos evidente e a Cofina, sendo um parceiro nacional, conhece o sector. A Semapa, por tudo o que (não) se conhece da sua proposta, seria um óbvio outsider em todo o processo, e estaria condenada à quinta e última posição da gradação que cabia ao júri estipular. Não tem experiência, pelo menos nas últimas décadas, no sector do papel e da pasta, não tem dinheiro nem capitais próprios para se abalançar a uma aposta deste género, sofre actualmente, numa das suas principais participadas (a Secil), de uma indefinição accionista preocupante. Por tudo isso, desde o princípio da actual fase de privatização da Portucel que se instalou a dúvida entre a comunidade que segue o dossier em causa: o que é que a Semapa está a fazer neste «filme»?
Forte na área de cimentos e produtos associados, a Semapa tinha tudo para vencer uma privatização anterior, a da Cimpor, na qual, associada a um dos maiores grupos mundiais – os suíços da Holcim, ex-Holderbank – aparecia, até quase ao último minuto, como o candidato mais bem posicionado. Num dos mais vergonhosos volte-faces da política económica portuguesa de todos os tempos, a Semapa acabaria por perder, e, obviamente não conformada com tal desfecho, tem-se desdobrado em processos jurídicos (uns concretizados, outros, valha a verdade, só ameaçados, mas sempre com ampla cobertura jornalística) contra a Cimpor, o Estado e o que mais se interponha entre a sua vontade (legítima) e o desenlace burlesco da citada privatização. Dizem as boas e as más-línguas que o Estado quer ressarcir a Semapa do quase esbulho a que esta foi sujeitada na tal privatização da Cimpor. Não há nada de mais errado. Porque, tudo visto, é quase impossível dizer que dos diversos interesses em jogo o mais importante não é o da Portucel, enquanto empresa líder do sector que integra, com capacidade de internacionalização óbvia, e possibilidade de se afirmar em termos globais como muito poucas outras companhias de raíz portuguesa terão. Não se pode combater o eventual «crime» (não ter entregue a Cimpor à Semapa) com outro que se afigura maior: pôr uma empresa de cimentos a liderar uma outra de papel e de pasta. Nem as ideossincrassias dos sectores são semelhantes. Corre-se o risco de, em pouco tempo, se chegar à conclusão que se resolveu a vida à Semapa (a Portucel é uma empresa cuja criação de valor para os accionistas está fora de causa) mas que se perdeu uma oportunidade ímpar de proporcionar à papeleira portuguesa a possibilidade de dar um salto histórico. Foi isso mesmo que Carlos Tavares confidenciou aos jornalistas, quando, confrontado «com tantas e tão diversificadas estratégias para a Portucel» - palavras dele -, se mostrou particularmente satisfeito por estar à beira de encerrar um dossier que no passado tantas dores de cabeça lhe terá dado.
Que o júri terá razões que a razão desconhece, ninguém teem hoje dúvidas. Que o Governo, e neste caso o ministro da Economia, tem a última palavra, é facto de que não será legítimo duvidar. Portugal tem aqui uma nova oportunidade para demonstrar que, por cá, os concursos não são ganhos na secretaria, e que os mais dotados e credíveis vencem sempre. Isto está longe de ser um dado adquirido da nossa história recente, mas está-se sempre a tempo de inverter uma «tradição», que tem feito da política uma arte menor, onde a intriga e o compadrio falam quase sempre mais alto que a competência e o interesse nacional.
Mas há dados que podem não fazer fenecer a esperança, o primeiro dos quais é constatar que, neste particular, Durão Barroso e o seu Governo ainda permanecem (que se saiba) sem sombra de pecado. Se decidirem como tantos dos seus antepassados, então teremos apenas uma certeza: não vale a pena jogar em Portugal, porque os dados estão viciados à partida. As consequências de um tal desenlace serão dramáticas para a credibilidade – já tão abalada – do País."

Como é já sabido, e foi amplamente antecipado pelos jornais (sempre não confirmado pelas fontes), a Semapa ganhou a privatização da Portucel. Sei que essa não era a decisão preferida por Carlos Tavares, tal como Pina Moura também não queria entregar a Cimpor à Teixeira Duarte. Porque é que eu não nasci sueco, foda-se!?

segunda-feira, abril 26

A hora do Jorge


Agora que já passou o 25/A, e como prometido (!) desde início pelo meu amigo e padrinho bloguista BOS, lá vos vou encharcar de Sena. E digam lá se é bom ou não.

CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos e a primazia
nas dores sofridas de um língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá em meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

ESTATUTO EDITORIAL

Agora que o blog já se parece com qualquer coisa, resolvi republicar o meu estatuto editorial. Perdoem-me a jactância

1 – A coerência não passa de um vício a que não pretendo ceder
2 – A vaidade é um pecado menor quando comparada com a inveja
3 – Ser honesto e fraco é tão mau como ser ladrão e roubar pouco
4 – O surrealismo fantástico e a alucinação pura têm aqui sempre lugar, contando que de literatura de trate

Estatuto infra-editorial
a) Sou homem e gosto de mulheres. Bisexualismo é deitar-me com duas ao mesmo tempo
b) Sou do Benfica e isso me envaidece
c) Hobbies: deitar abaixo toda a teoria da educação, autoritária ou liberal ou outra
d) Sei pouco de política, mas gostava de ensinar a que sei

Crenças
Se não me atirares uma bomba, estou disposto a aceitar que o meu Deus não deve aniquilar o teu, embora o meu seja melhor.

A liberdade é talvez o único valor pelo qual vale a pena matar.

Portugal é um sítio onde vale a pena viver, enquanto tiver aeroportos com ligações internacionais.

No que diz respeito à xenofobia, prefiro arménios, sérvios, ucranianos, trasmontanos, norte-irlandeses católicos, nova-iorquinos, madrilenos, quase todos os suecos, espanholas, e o Kingcross em Sidney, à sexta-feira à noite.

Retrato
Aprendi a aproveitar-me das mulheres que me acham sexy e a concordar inteiramente com aquelas que nem por isso. Apesar disso, o amor releva, sempre que pode.

Vícios e maus hábitos
Cigarros. Às vezes, noite dentro, bebo mais que a conta. Já fui poeta e ainda hoje tenho recaídas.

# posted by clark59 : 00:12
Faz favor de dizer

Planeta Clark with Lois, for sure


A minha primeira foto tinha que ser dedicada ao mais íntegro, rápido, sagaz e humilde jornalista da história recente, o grande Clark Kent. Pena ser uma personagem de ficção. Mas qual é o jornalista que já não aspirou a ser Super-Homem?

domingo, abril 25

O meu 25 de Abril (II)

A professora Teresa era uma chata. Cinquenta anos com muito pó na cara, mais o perfume adocicado, a lembrar-me as velhas à saída da missa. Devia ter sido bonita. Mas tinha aquele traço desessencial num professor, que é o de não ter paciência nenhuma para os miúdos. Ao terceiro tempo lá estava, esta não faltou, ora porra! Lição diferente de História (era o que ela dava) ía calhar ao povo nesse dia. "Ainda hão-de ter saudades!", dizia. De quê?, a gente não tem saudades de nada, temos 14 anos! "O mais normal é que seja instalada uma ditadura militar! O meu marido [lá vinha o marido, santo homem devia ser, estava sempre a ser citado, por tudo e por nada], que é piloto da TAP [tá bem, eu nunca andei de avião], já viu coisas destas".
Eu é que nunca tinha visto coisas destas, tais como o Nelinho dizer que o pai era do Partido Comunista há mais de dez anos (e como é que a gente não sabia?), o polícia a perguntar se estava tudo bem com a gente, em vez de nos enxotar do jogo da bola, ou as raparigas a misturarem-se no recreio connosco. As raparigas, quando estão todas juntas, são muitas, é difícil olhar só para uma...
Mas o que eu queria mesmo era só cá comigo. Por isso, mal pude, deixei a malta. Fui buscar a bicicleta e desci a rua. Nada, ninguém me mandou parar... Ganhei coragem para a segunda experiência. Cheguei ao parque. Pisei a relva. Olhei em volta. Nada...
A professora Teresa dizia: "Quem não gostava disto antes ainda vai ver coisas piores". Pior não era de certeza, se se podia pisar a relva, ao menos uma vez na vida.
Agora sou crescido, já não piso a relva do jardim.

O meu 25 de Abril (I)

Tenho uma tia freira-professora, que pelos anos setenta se dava bem com o Miguel Torga, o Rui Namorado e outros coimbrenses ilustres, pouco amigos do regime do 24. Das esquerdas sabia ela, que albergava há anos estudantas da faculdade, num lar do qual era directora, ali à Aires de Campos, perto do Penedo da Saudade. A primeira vez que vi um tanque de guerra foi lá na rua, am Abril de 69. Andavam à procura de um patife qualquer, já não me lembro se do Alberto Martins se do Celso Cruzeiro, que tinha pedido abrigo a uma namorada arranjada à pressa por detrás dos portões do lar das religiosas. Coisa que ela, a minha tia, não consentia, não via e tinha raiva a quem visse.
Foi a minha tia que nos deu lá em casa o 25 de Abril. Às tantas da manhã, telefona à minha Mãe, irmã dela: "Oh Cina, vê lá os miúdos, olha que houve um Golpe de Estado, ainda ninguém sabe onde isto vai parar!". "- Bem", pensou a minha Mãe, "se houver alguma coisa lá na escola lhes dirão", e deu-nos o pequeno-almoço, a mim e à minha irmã mais nova, como de costume.
O professor António, que dava aulas de português e conduzia uma coisa cultural semi-tolerada lá na terra, faltou à primeira hora. "Alto, que aqui há gato", pensou a rapaziada. O gajo, o mais certo, era estar metido nisto, disse o Mário,que já tinha reprovado e era assim mais crescido. Que se lixe, um feriado ao primeiro tempo era coisa para ir jogar à bola.
Nisto passa a Nívea, coisa inusual por aquelas bandas e àquela hora. Os polícias falaram com a gente, perguntaram se estava tudo bem. "A gente não fez mal nenhum, ó sô guarda". Não era isso, era para saber se estava mesmo tudo bem. Porque raio é que o polícia havia de querer saber se estava tudo bem?

Este é meu

As cadências envolvem os hábitos
em fracassos
e o terror arrasta fronteiras incausais.
A sorte enlouqueceu.
Mordem-se os moribundos
e o peixe salta nas entre-mágoas
Luz eterna, Lusitânia

Natália de natal 25

Evoé! de pâmpano os soldados
rompem do tempo em que Evoé! a terra
salvé rainha descruzando os braços
com seu pé de papiro pisa a fera.

Na écloga dos rostos despontados
onde dos corvos se retira a treva,
de beijo em beijo as ruas são bailados
mudam-se as casas para a primavera.

Evoé! o povo abre o touril
e sai o Sol perfeitamente Abril
maravilha da Pátria ressurrecta.

Evoé! evoé! Tágides minhas
outras vez prateadas campainhas
sois na cabeça em fogo do poeta.



Ainda a propósito da mão fechada da Nova Frente, tantas mãos

A mão depende. A mão que embala o berço, a mão que se distingue, a mão que não convém. a mão que sempre esteve presente, a mão da mãe, a mão cheia de esterco, a mão também, a mão consigo, a mão que não consigo, a mão desdém. a mão de amigo, a mão de abrigo, a mão de cerco, a mão sextante, a mão na coisa, a coisa na mão, a mão que é vida, a mão detida, a mão sem ver, a mão contígua, a mão que entende, a mão às vezes, a mão sumida, a mão recíproca, a mão deitada, a mão sonhada, a mão na cara, a mão na alma, a mão destinada, a mão comprada e até a mão que te chamava, antes da barricada e da charada, ainda era a tua e a minha mão

Os cravos por acaso

Aproveitando a vasta notícia que houve de uma canção de José Galhardo, internacionalizada nos anos 40 por Amália, o SNI de então resolveu propor uma campanha de turismo (pioneira), que se intitulava 'Abril em Portugal'. Tinha toda uma estratégia de marketing, já que Portugal – pelo menos algumas das suas regiões – tem em Abril condições climatéricas e de paisagem únicas na Europa. A ideia era básica – propor aos europeus fugir de traçados mais cosmopolitas ou, à época, mais conhecidos, numa altura em que as férias repartidas começavam a fazer sentido.
Economicamente, até a revolução do 25/A faz sentido. Para todos quantos se posicionam na Europa num registo deste género, começar a vir a Portugal numa altura destas – feriados de 25/A e 01/M, entrelaçados, mais às vezes o Corpo de Deus a ajudar – é uma conquista económica para o turismo, que representa 8% do PIB, mais coisa menos coisa.
E depois há os cravos. Não é preciso muita imaginação e paciência para fazer uma volta na Net e perceber quais são as verdadeiras marcas nacionais reconhecidas mundialmente. Os cravos da «revolução sem sangue» são uma delas. Vamos escondê-los? A força de uma flor é importante. A força de uma marca é ineludível.
Sabem que os cravos apareceram por acaso, devido às floristas que estavam no Rossio e na Praça da Figueira, e que deram flor ao manifesto, e aos soldados, portanto?
Assim se fez Portugal, mesmo para os que o entendem mal.

Sofia sem sofismas

Esta é a madrugada que eu esperava
0 dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge


A mão que sai do peito ou mesmo da cabeça

A mão do homem, como toda a gente sabe, serve-se de preferência aberta, com a palma em viés, nascendo na direita e, em movimento, entregando-se à esquerda. É esse o gesto quando de encontro se trata. No resto, quando se ergue, já não é de encontro, mas de diferença; as mais das vezes é de síntese, às vezes é de guerra. Mas será sempre humano, mesmo que demasiaso humano.

sábado, abril 24

Santiago é dos outros

Ontem foi dia de S.Jorge, padroeiro de Portugal, Inglaterra, Geórgia e Lituânia. Gosto do capadócio há imenso tempo. Com ele obtivémos grandes vitórias, sobre os tiranos e sobre o dragão (sem brincadeiras, que eu sou do Benfica). Alguém me pode explicar porque raio a Igreja Católica retirou este vulto dos altares? É que o Deus que me ilumina, e o Condestável que O serve, não me emprestam outra alma senão a do que o venera. Será das lendas? Ou dos 'aventais' que surgiram depois, saia escocesa a que sempre me escuso?

PS. - Tenho por Santiago de Compostela (cidade) o maior dos enjoos. Cidade feia e velha, tresanda a crendice e a espanholice bacoca *. Ainda gostava de saber porque fiéis filhos lusitanos andam de cajado na mão a gastar sandálias para lá ir em procissão.


* Da Espanha que gosto falarei a seu tempo

L'Avril au Portugal

Se tudo correr bem, conto presentear a vasta (?) audiência com as razões primeiras (e as segundas) pelas quais o mês de Abril ficou conhecido como uma marca lusitana hodierna. E olhem que temos poucas, não as estraguem!

PS. No blogue Nova Frente brinca-se com o Ary dos Santos, a propósito de cacofonias. Eh pá, ai levas, levas! Modernista, hmmm?!

sexta-feira, abril 23

Ora aqui está uma coisa que era impossível antes do 25 de Abril... de 1984

"Sexo é apenas sexo, não é tão complicado como o amor". Este é apenas um dos 304 (!) comentários que um post de um mais que provavelmente jovem Sebastião mereceu num blog aqui perto de nós (www.sexlisbon.blogspot.com). É aposto por fêmea. Do alto dos meus quase 45 anos, reconheço que a querela continua, mas noutros termos. E que, nestes 30 anos do 25/A, a revolução mais exigente é esta, a das fêmeas que querem sexo e no-lo dizem, e a dos machos que já não querem e ainda o fazem.
Leiam todos os que me seguem, em idade e ideossincrassias, sejam de direita ou de esquerda. E dito isto, retiro o que disse sobre os índios que usam os blogs como chats. É que não são nada chatos, os nossos pós-adolescentes. Só dão é (muitos) erros de gramática.

PS. - Só tenho pena - e justificando o título - que as revoluções hoje em dia sejam mais de virose que de vontade. Há para aí quem dê graças aos Céus por tanto. Eu nem um pouco. Jag elskar dag!

quinta-feira, abril 22

Internet

Guerra contra virus ganha em toda a linha, com ajuda de amigos, como fica bem em todas as guerras. Férias a partir de sexta-feira. Blog arranca em pleno logo a seguir.

quinta-feira, abril 15

Também concordo que ele é um caso

O Buíça é de Vinhais
Que por postais tem alheiras
Mas quer queiras ou não queiras
As minhas são por demais

Não te sorvo a pose 'nice'
Sou mais ao sul, de Moncorvo
Sou mais a Norte que o acervo
Que debitas sobre a Rice

Tens virose aguda tal
Que mesmo quem te quer mal
Por de ti se apieda
Vai com Deus mas volta sempre
Que a gente manda-te à merda

quarta-feira, abril 14

Ergue-se um verbo novo - eu canto

Nos terraços, nas campinas
e nas fogueiras altas de S.João
emprestem-me uma guitarra
com sabor a papoilas e lírios roxos
do campo.
E virá Viriato com um bando de saloios
comer sardinhas assadas;
pode ser até num dia de revolução

Das flores

Um amigo meu, que gosta do 25 de Abril, leu no blog Nova Frente ('sorry', só vou aprender a fazer ligações/links lá para quinta-feira), leu, dizia, um poema de um cultor menor da Arcádia, que era utilizado pelo dono do sítio em causa como anacronismo para brincar com os cravos, que como se sabe fazem parte da 'pop' da data.
Para que não digam que não falei das flores, vai a seguir uma parte de uma peça poética da autoria desse meu amigo. É que, já agora, os que pensam Portugal (chamem-se-lhe nacionalistas ou outra coisa qualquer) não correm todos o perigo de se candidatarem nas listas do PSD e do PP, ou de terem como predicado político o horror por aqueles que o fazem. Mas acho bem que os que correm nessa margem tentem, entre si, delimitar as águas. Não se esqueçam é de que margens há duas. Isto para não falar dos deltas. Ou melhor, dum ponto de vista cínico, quanto mais tarde se lembrarem...

segunda-feira, abril 12

Blogs

Após uns dias a olhar para esta coisa dos blogs, aqui vai.
Parece-me uma coisa meia adolescente, já que há muita gente que dá ideia de estar a curtir nuns 'chats'. Eu sempre tive para mim que quando se fala em público (isto é público) vale mais ter alguma coisa para dizer. Para queimar o tempo, ou ter visibilidade, há outras formas de actuação, digo eu. A quantidade de frases sem sentido nenhum, que li nos últimos dias, é notável.
Vêem-se coisas do género ‘falar para o umbigo’. Vislumbram-se outras que funcionam como desabafo, só. Outras tantas armam em intelectual, cuja diferença do intelectual estrito é que não adiantam nada à sapiência de quem lê. Depois há também aquelas que não defendem nada, não atacam nada, liofilizadas no seu hermético medo pós-moderno. E há ainda outras que demonstram as bocas estreitas e as mãos pequenas que por esse Portugal abundam; isto sexualmente falando. Por último, descobri algumas que são 'humus naturalis', e pronto.
Eu ainda estou a começar. Algum dos meus plausíveis leitores me quer dar uma explicação – eu diria mesmo, uma forcinha?


P.S. – Para que conste: há (também) bloguistas que não estão nisto apenas para queimar testosterona (se for o caso, meninas que aponham ‘a’). Veja-
-se, por exemplo, o meu amigo pouco simétrico Nova Frente.


A luz que vem da água

Quando se chega à capital do país mais civilizado do Mundo, é díficil acreditar que algures naquelas ilhas fronteiras ao palácio onde se entregam os Nobel ainda havia antropófagos há pouco mais de cem anos. A história do desenvolvimento sueco no século XX é de uma simplicidade arrepiante, e no entanto eficaz. Só dá vontade de perguntar: porque é que não é assim em todo o lado?
A minha paixão pela Suécia vem do tempo em que tentava imitar o som das falas da Pipi das Meias Altas. Aquela língua esquisita e cantante fascinou os meus oito anos de idade, e continuou adolescência fora quando às vezes fechava os olhos para «ouvir» os filmes de Bergman. Ou quando fui ver Por quem os Sinos Dobram, e me apercebi que a espanholita republicana era uma actriz sueca, que se chamava Ingrid. A paixão tem muito disto: é como se adorássemos as escadas que levam ao apartamento da amada. Eu com a Suécia sou assim.
E agora Estocolmo. Nunca lá estive no Verão e tenho pena. Não passa do próximo, se o orçamento deixar. Mas se não conheço a luz que me dizem vir das almas numa qualquer noite de Junho, lembro , luz que vem da água ao pôr-do-sol de um dia de Inverno. Não é possível estar em Estocolmo sem estar de bem como uma água que faz o mlagre de ficar tépida durante boa parte do ano. E que, já agora, é preciso que se saiba, é limpa. E indústria ao redor não falta. Como é que eles fazem? É simples, eles são suecos e nós não.
Na cidade, lembro-me de um bar lindíssimo, a preços aceitáveis e com encerramento a horas decentes (saí de lá uma vez às cinco da manhã), chamado Tre Renmare. Lembro-me de um restaurante em Gamla Stan (assim chamam à cidade velha), onde pontifica um jovem reformador da cozinha tradicional sueca. «Pontus in the Green House» é o nome na porta. Lembro-
-me de um passeio ao nascer do Sol (por volta das dez da manhã) no parque de Djurgarden , com mil verdes e castanhos e umas almôndegas pela hora de almoço que não tinham nada que ver com a minha experiência anterior no assunto. Lembro-me do Vasamuseet, onde repousa o maior navio do século XVIII, depois de ter passado 250 anos debaixo de água; viveu apenas um minuto à tona de um sonho de um rei absoluto.
E lembro-me da Helena. «Sabes porque é que as pessoas na Suécia já não se suicidam tanto? É porque passámos a beber menos vodka e mais vinho tinto».
Brindo a isso! Também, desde que não lhe apague o azul dos olhos, que importa?

Shakespeare in love

Nem sabem ao certo quem eras. Uns dizem que nasceste pobre, eras rufião, fugias ao fisco. Pobre, e fugias ao fisco... alguma coisa mudou em quatro séculos.
Outros não acreditam em tal. A genialidade tem que ter um berço, a métrica tem que ter pauta de escola. E portanto não eras de Sttratford mas de Oxford, e fugias mas era do nome nobre, que te impunha distância de palcos e camarins.
Olha, eu cá para mim vieste da Lua. Despediste-te dela quando abraçastes a forma de Terra, e nela nada mais nasceu de relevante. Trouxeste a pena para enfeitar as minhas caravelas, mudaste o tempo que passou e inventaste um outro firmado nesse mesmo. Uma ponte, portanto. Que me importa a mim se eras do Tamisa grande ou do mais modesto Avon?

sexta-feira, abril 9

Pirelli piroso

Não tenho nada contra os paneleiros-esquizofrénicos-astigmáticos. Mas o calendário Pirelli deste ano é obra de um paneleiro-esquizofrénico-astigmático. E eu não acho bem

sábado, abril 3

O chamado poder de decisão europeu está ferido de morte. Tenho para mim como claro que, salvo alguma inflexão política de monta (hoje por hoje não expectável), a Europa dominadora nos campos cultural e ético vai morrer nos próximos anos. Cinquenta, trinta ou cem, não importa, nem para isso tenho bússola ou cartas de adivinhação suficientes. Estamos um pouco como o Império Romano no século IV. Somos mais fortes e, no entanto, vamos perecer às mãos de fomes e de vontades mais férreas. Coisas que, nem uma nem outra, por cá muito abundam. E que, em boa verdade, a primeira não seria precisa mas a segunda tanto falta.
A Europa é, nos últimos cem anos (pelo menos) o melhor espaço de liberdade e de afirmação de cidadania que jamais foi possível incrementar no Mundo. Vai senão quando, começou a exteriorizar sinais de riqueza e de fraqueza política que só a desmancham, e que, ao fazê-lo, tiram a esperança a quantos esperavam imitar-nos, dão força a quem nunca nos tomou como exemplo, e vitaminam aqueles que acham que a nossa ideia de vida não passa de um pecado. Vivemos portanto num caminho de extremos, que nos é externo, que não compreendemos e que nos será, por isso, fatal.
Mas não deveria ser assim. É no consumo imoderado de bens de cultura, na actividade continuada de investigação científica, na extrapolação dos movimento radicias para novas conquistas sociais maioritariamente aceites que vive a génese do que concebemos como a Europa que hoje temos. Isto para já não falar de que os últimos séculos europeus enformaram o Mundo de todas as lógicas dominantes e oposicionistas que hoje – ainda – se degladiam.
O que nós, habitantes da Europa, não compreendemos ainda é que existem franjas perfeitamente integradas em termos ético-estratégicos que vão, forçosamente – de uma maneira alarve ou mais serena –, pôr em causa a nossa maneira de viver, no que tem de errado como no que tem de certo. Falo, por exemplo, dos nossos vizinhos muçulmanos, que ainda hoje mal aceitam uma, ou ambas, de duas coisas: a primeira, a nossa cultura; a segunda, a nossa forma de a impôr.
Mas para quem tem tanta segurança nas virtualidades positivas do nosso modo de vida e na superioridade na nossa organização social, estamos, no mínimo, mal preparados para a sua defesa. Depois do fim do serviço militar obrigatório (ideia excrementária da mais irracional e apressada das visões), confrontamo-nos agora com a ideia securitária da sociedade civil. Trata-se de um grande erro, que coarta a liberdade em cada ponto da vida. É na virtualidade de um sistema de segurança quase paralelo à sociedade civil que vive uma capacidade continuada de fazer o que faz falta, em cada momento, à situação. Por outras palavras, alguém se esqueceu de que não há política que sobreviva sem uma forte componente militar. Sob pena de (uma) de duas coisas: capitulação de defesa ou concentracionaridade social. Ambas, obviamente, devem ser postas de parte.

Epístola

Demasiado ocupado com os casos do dia, quase que me escapam as questões do céu. Pior do que isso: passo por sítios onde nunca fico, terras onde fui mas nunca estive, ideias que me fogem a correr. Estranha história esta, a minha recente. Mas agora tenho um tempo de parar. Aproveito para falar convosco. De quê? Do céu, como já disse.

Ao contrário do que pica nove-às-cinco, o céu é intemporal. O que não se faz hoje, amanhã terá o seu tempo. Esta é a fuga da prisão primeira, mãe de todos os pecados. O tempo marca a maior parte dos sinistros de que na Terra há memória. E isto porquê? Porque na vida aprendemos, cedo ou tarde, que não há nada que nos escasseie mais que o tempo. Enfrentando uma barreira que é a morte, todos os dias são poucos, seja para brincar, fazer como os outros ou realmente inventar a diferença. Não há nisto que vos digo qualquer hierarquia. Apenas diferentes tempos, a que cada um deve prestar homenagem e talento, ou, sendo caso disso, escolher prioridades. É convosco. Mas nunca por nunca a vassalagem.

Depois, há o aperfeiçoamento. Se se sabe ao que se vai, vale mais alcançar o que à mão se tem, desde que à mão algo fizermos para que nos chegue. Não sendo obrigatório, fica bem e ajuda ao tempo que se vive, a nós e aos outros. Também neste espaço há um lugar para o céu. Por exemplo: não é que o melhor de nós seja sempre o que vai primeiro, mas não vos fascina a ideia? Então, mais vale que ele (o melhor, o precursor) saiba o que faz. Mas a sua dimensão só está completa quando não se esquece nem do outro nem do que nessa atitude se persegue. Do céu é também isto.

Pode ser - terceira parte - que a vós vos seja dado um comando. É o mais estranho dos comportamentos humanos, mas deve ser encarado seriamente e com reconhecimento, desde que em bases de verdade seja atribuído ou alcançado. Para que serve?, deveis perguntar-vos em hora segunda, logo após a aceitação do cargo. Para fazer um pouco mais de céu, digo-vos eu. Mandar pode ser, por muito que custe aos meus contemporâneos, uma arte e uma dádiva, antes que uma sorte. Deve antes demais servir para tirar da frente o que não presta, os que não prestam atenção à vida. Dir-me-ão que é solidão. Não forçosamente. Aquele que manda mostra, como atitude mais nobre, o céu que escapa aos outros. E se de céu se trata, bem se trata.

O céu é, pois, a liberdade de ser e a aceitação de ser. Uma sem a outra não têm razão de existir. Mas primeiro é preciso combater o inferno que há nos outros, naqueles que não divisam a vantagem do silêncio quando de silêncio se trata, de música quando há salão de baile. Há nestes tempos ainda tempo para o combate. Nâo convém, contudo, perder de vista o sítio - o céu. Porque eu pergunto: quem alcança o que não almeja, quem chega ao que não conhece ou ao que não inventa? Por isso vos exorto: não vislumbreis menos que o céu, para que nada vos faça fenecer no tempo que vos resta.

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