segunda-feira, março 29

Rodrigo Emílio de Melo

Tinha em comum com ele o gosto de pensar, o deitar-me tarde e a necessidade da poesia. Quase mais nada, que a liberdade dele não era a minha. Mas bastava. Era um fulano íntegro. Ou seja, um objecto raro. E gostava de mim, não sei porquê.
Não tenho medo de portugueses como ele, que tão diferente de mim pensam. Tenho medo, isso sim, daqueles a quem pensar faz asco. Sinto-me mais do seu lado do combate - a ideia - do que do lado onde as ideias, entre nós dois, não rimam.
Rodrigo, vai ter com o teu D.Sebastião, e se faz favor diz-lhe que eu não!
Boa sorte (na tua imortalidade)!


sábado, março 27

A verdadeira história

Clark Kent,
do Daily Planet
A vida num teclado
a mil batidas por minuto
Nervos de aço sem mostrar
cansaço,
sempre ao serviço da verdade
Visão laser
para melhor te ver,
pecado, crime e opressão,
notícias da cidade grande
Coração por Lois e coração
por todos repartido
Metropolis em destroços
e ele é um jacto que descola
Muda o fato
tira os óculos
capa ao vento
põe Lex Luthor em sentido
Se kriptonite deixar
ele regressa
O tempo que passou entretanto
não conta
Clark Kent está de volta
põe os óculos
cumprimenta
segue rápido para outra
Verifica: Lois Lane ainda lá está
desconfiada como sempre
Suspira, Clark Kent
super-herói
disfarçado de homem invisível

sexta-feira, março 26

as feias

Portugal sempre foi um País de homens descuidados e mulheres feias. Estes problemas têm modos de resolução diferentes, na forma e na dificuldade. Sobre o desleixo dos homens, não há nada a fazer, é esperar que o tempo passe, e que eles se habituem, nestes anos de maior contacto global, a usar sabão, depois creme, depois ginásio, depois ferro de engomar, depois talvez até plásticas. Sobre a fealdade das fêmeas, é fácil: substituem-se por estrangeiras. Nem todas, mas quase todas.
Vem isto a propósito de um artigo que li outro dia na Grande Reportagem, um opúsculo que já fez história no panorama comunicacional português, e que agora é distribuido, em formato de saldo, ao sábado no Diário de Notícias. Sinais dos tempos, e adiante. O referido artigo, muito mal editado e feito à pressa – o que não o é, hoje em dia?... – referia o tema da beleza feminina em Portugal, e particularmente os ícones, ou a falta deles, que povoaram a ideia dos ainda vivos e entrevistáveis.
Para começar, o painel de homens não era assim tão mal escolhido como isso, se bem que de feios e mal ajeitados todos tivessem um pouco. Ressalva para o Baptista-Bastos. Mas a pobreza ou inadequação das asserções dos machos lusitanos só têm paralelo com o escassíssimo campo de escolha a que foram sujeitos. A Beatriz Costa? Que Deus a tenha, mas se aquilo é bonito eu vou ali e já venho.A Vicki Fernandez? Minha Santa Bárbara, estão a confundir beleza com pinta de beta. A Catarina Furtado? Mas será que ela já saíu da puberdade intelectual? E por aí adiante.
Numa lógica de campeonato internacional, nem vale a pena sacar de comparações com nuestras hermanas, ou com suecas que seja. É demasiado cruel para as senhoras que nos servem o jantar e nos servem de tema. Mas para quem já tenha visitado países que connosco vão concorrer ao nível de apoios comunitários – uma bitola comparativa muito em voga e que serve para tudo - não é de estranhar que se diga que, em matéria de beleza feminina, estamos feitos. As checas, as eslovacas, as eslovenas e as croatas, talvez mesmo as húngaras e as polacas, deixam as nossas à distância de um tiro (de metralhadora) no que diz respeito a beleza, ou mesmo tão só a um certo balanceamento físico, mais perto do clinicamente correcto. Isto deve-
-se, entre outras coisas, à prática de desporto e vida saudável a que as moças de Leste são submetidas desde tenra idade, enquanto que as nossas derivam historicamente das escolioses do ponto de cruz e das tromboflebites do Rosário de Fátima, à volta do Santuário e de joelhos. Proponho por isso, e desde já, que a matéria ‘beleza’ seja introduzida como factor de desenvolvimento relativo no próximo quadro comunitário de apoio, o que sem qualquer dúvida – e pelos índices negativos que seguramente atingiremos – nos porá a salvo de cortes de subsídios, que tão mal farão à lusitânea arte de viver à pala.
Não consigo terminar esta sem opinar – também eu – sobre a beleza feminina do lado de cá da fronteira. Ressalvo o facto de, eu próprio – que sempre tive meia dúzia de almas que me achavam sexy, mais umas trezentas para quem eu era um horror, sendo que sempre concordei com as segundas e aprendi a me aproveitar das primeiras – ter tido a minha dose de bifas, que é uma maneira salutar de recordar com menor peso na alma a adolescência e a juventude.
De entre as portuguesas, aquela Ana Paula de Moçambique, anos 70, foi talvez a primeira que me deu a volta. Eu explico: há uma altura na vida de um homem (ou de um rapaz, melhor dizendo, se ele não for totalmente panasca ou inelutavelmente grosso), em que a junção entre o cérebro e o pénis estimula o que de melhor há no masculino. Foi o que me aconteceu na visão da citada crioula. Lembro-me bem: nem foi como se a minha Mãe me desse um abraço, nem como se a Zezinha me mostrasse as mamas, nem como se a professora me ensinasse as especialíssimas características da extracção mineira no Alasca. Foi isso tudo e mais o rebolar de anca da jeitosa. Ela parecia ter gosto naquilo, ou seja, mostrar-se. O que é que havia ali de «errado»? Assimilei anos mais tarde aquilo que em «verde» me tinha sido preclaramente mostrado: aquilo era uma mulher e eu sentia o assunto em toda a sua completude.
Depois deste psiquiátrico parágrafo, gostava de incentivar a nossa juventude cromossomaticamente masculina a, alternativamente, duas tarefas: 1 - assumam a fealdade das nossas e tratem de assinar os papéis de emigração para as lestinas. 2 – se tal não for possível, obriguem, pelo menos, as nossas a efectuarem uma depilação decente.
Que a Pátria viva e prospere!

O sr. engenheiro

Em Portugal, quando se fala do sr. Engenheiro, está-se quase sempre a aludir ao ‘cromo’ do Herman José, que pretendia realizar a Expo no Norte, mas que, vai não vai, mal chegou a Lisboa para pedir um subsídio, ficou mais alfacinha que os ditos. Toda a gente conhece um morcão ensaiado de mouro, e por isso esta parte da prosa fica já por aqui.
Para além das alegorias, o sr. Engenheiro pode ser também o Jardim Gonçalves, homem de ofício dedicado, que às bancas disse pronto. Ou o Belmiro de Azevedo, que em se levantando da terra logo o lucro lhe bate ao céu.
Mas o sr.engenheiro de que aqui se trata é outro. Trata-se de um relapso bem-criado, homem de cartão socialista, que à espera de um mundo melhor cristão, uma vez por todas foi primeiro-ministro. Esse coiso é indicado, em meios quase do género, como o António-que-fica-bem-para-presidente, numa óptica socialista falando. Do desespero férreo e do despautério costa não se tratará aqui. Só da (má) índole do personagem.
O coiso em causa é um fugitivo, que ao Richard Kimble faria inveja. Mal viu o ensaio de fuga, por interpostas eleições autárquicas, deu às de Vaz Pinto, que o mesmo é dizer, às de «vila diogo», e deixou órfão um partido que erradamente julgava que tinha Pai. É esta uma boa parte do currículo que ele mostra para ensaiar o ‘okupa’ do Palácio do Jorge.
Mas não chega. O coiso de nome António é também um político de meia-
-hora ou não hora. Fontes próximas do inenarrável manifestaram a inconfidência de ser o António homem clisóstomo capaz de viver em terra e no mar, por mais que Cimpor se imponha e radares de costa se juntem a Junqueiro. Dois milhões o ouçam, com ou sem Teixeira. E mais: Duarte que o tenha!
António tem, finalmente, um fundo profundo que o não recomenda. É gordo! E é tólico, o que não é o mesmo que ser católico, para quem acordou para o terço num dia diluvioso sem Noé, algures entre Salvaterra de Magos e o Vaticano segundo a sua melhor Luísa.
Isto visto, António-em-presidente, que Deus o tenha, não é o primeiro em nada. É uma fonte de retardo, de incompletude assimétrica, de Santa Maria sem porto, de pernas sem ter andar. Não consta. Por isso morre sem ter nascido. Tal é a lacre vingança sobre quem de aborto fala. Mas isso é (já) uma outra história.

ESTATUTO EDITORIAL

1 – A coerência não passa de um vício a que não pretendo ceder
2 – A vaidade é um pecado menor quando comparada com a inveja
3 – Ser honesto e fraco é tão mau como ser ladrão e roubar pouco
4 – O surrealismo fantástico e a alucinação pura têm aqui sempre lugar, contando que de literatura de trate

Estatuto infra-editorial
a) Sou homem e gosto de mulheres. Bisexualismo é deitar-me com duas ao mesmo tempo
b) Sou do Benfica e isso me envaidece
c) Hobbies: deitar abaixo toda a teoria da educação, autoritária ou liberal ou outra
d) Sei pouco de política, mas gostava de ensinar a que sei

Crenças
Se não me atirares uma bomba, estou disposto a aceitar que o meu Deus não deve aniquilar o teu, embora o meu seja melhor.

A liberdade é talvez o único valor pelo qual vale a pena matar.

Portugal é um sítio onde vale a pena viver, enquanto tiver aeroportos com ligações internacionais.

No que diz respeito à xenofobia, prefiro arménios, sérvios, ucranianos, trasmontanos, norte-irlandeses católicos, nova-iorquinos, madrilenos, quase todos os suecos, espanholas, e o Kingcross em Sidney, à sexta-feira à noite.

Retrato
Aprendi a aproveitar-me das mulheres que me acham sexy e a concordar inteiramente com aquelas que nem por isso. Apesar disso, o amor releva, sempre que pode.

Vícios e maus hábitos
Cigarros. Às vezes, noite dentro, bebo mais que a conta. Já fui poeta e ainda hoje tenho recaídas.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

´ BlogRating